Com meu afeto, Conceição Evaristo


"Uma gota de leite/me escorre entre os seios./Uma mancha de sangue/me enfeita entre as pernas./Meia palavra mordida/me foge da boca./Vagos desejos insinuam esperanças./Eu-mulher em rios vermelhos/inauguro a vida./Em baixa voz/violento os tímpanos do mundo./Antevejo./Antecipo./Antes-vivo/Antes – agora – o que há de vir./Eu fêmea-matriz./Eu força-motriz./Eu-mulher/abrigo da semente/moto-contínuo/do mundo."

Eu-mulher (2008)

CONCEIÇÃO EVARISTO
(1946- )

"A voz da mulher negra na literatura brasileira", natural de Belo Horizonte, Maria da Conceição Evaristo de Brito nasce no dia 29 de novembro de 1946 para se tornar um dos maiores exponentes da literatura contemporânea, centralizando a vivência da mulher negra e o retorno à ancestralidade afro-brasileira por meio de sua prosa. Romancista, poeta, contista e linguista, também atuou até sua aposentadoria em 2006 como pesquisadora-docente universitária, atuando no Middlebury College, PUC-Rio, Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Universidade Federal Fluminense (UFF) Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e Missões (URI) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), após longa carreira como professora da rede pública fluminense.

Conceição Evaristo tem sua estreia na literatura aos 34 anos de idade, com uma seleção de seus poemas publicados na coletânea Cadernos Negros. Com um conjunto de obra marcada pelo uso de metalinguagem e junção de vocábulos, cunha o termo "escrevivências" para descrever seu método narrativo de misto de ficção e fato, usando de uma realidade particular para relatar uma vivência coletiva - a da população negra, dizendo que “o sujeito da literatura negra tem a sua existência marcada por sua relação e por sua cumplicidade com outros sujeitos. Temos um sujeito que, ao falar de si, fala dos outros e, ao falar dos outros, fala de si”.

Em 2003 publica seu primeiro Romance, Ponciá Vivêncio, aos moldes da temática característica de Evaristo, expondo questões de classe, raça e gênero, sendo mais tarde publicado em inglês e espanhol.

Já em 2018, Conceição Evaristo candidatou-se para uma posição na Academia Brasileira de Letras, após grande manifestação popular online para que ela se tornasse a primeira mulher negra a ser imortalizada pela Academia. Evaristo candidata-se então para clamar pelo direito da mulher negra de ser representada na ABL: “Eu escrevo a partir da minha subjetividade de mulher negra e encontro identificação mesmo internacional. Então, quem definiu isso do que é literatura universal? Eu leio Jorge Amado, mas não sou nenhuma Gabriela”. Mesmo com grande apoio popular, ao não assumir quaisquer padrinhos ou oferecer jantares, recepções ou outros eventos sociais esperados de um candidato, a escritora mineira obteve apenas um voto e não foi eleita. Sobre sua "quebra" de protocolo pela falta de participação no "clube de amigos", a mineira respondeu simplesmente que sua participação é sua obra. Atualmente, dos 40 Imortais, apenas dois são negros, Domício Proença Filho e Gilberto Gil, que só foi eleito em 2021.

Foi em 2018 também que seu estado de nascença, Minas Gerais, a contempla com o Prêmio de Literatura de Minas Gerais pelo conjunto de sua obra. No ano seguinte, ganha o Prêmio Jabuti, mais importante da literatura brasileira, na categoria Personalidade Literária do Ano. Em 2014 chega à final na categoria Crônicas e Contos do Prêmio Jabuti com Olhos d'Água.

Atualmente aos 76 anos de idade, Conceição Evaristo segue sendo um dos principais expoentes da literatura brasileira em atividade, de importância significante para o reconhecimento da experiência feminina negra como única e marginalizada, impondo-se de forma a exigir que sua existência como mulher negra, originária da favela de Pindura Saia na zona sul de Belo Horizonte e intelectual seja vista, lida e respeitada, escapando dos limitantes da visão estereotipada, racista e violenta perpetualizada pela sociedade brasileira: “Há esse imaginário que se faz da mulher negra que samba muito bem, dança, canta, cozinha, faz o sexo gostoso, cuida do corpo do outro, da casa da madame, dos filhos da madame. Mas reconhecer que as mulheres negras são intelectuais em vários campos do pensamento, o imaginário brasileiro, pelo racismo, não concebe.”

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