Carolina de Jesus além do quarto de despejo

"Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade."

CAROLINA DE JESUS
(1914-1977)

    Catadora de lixo e um dos maiores expoentes da literatura feminina brasileira, Carolina Maria de Jesus escrevia diariamente em seus diários, numa favela de São Paulo, até ter seus manuscritos descobertos por um jornalista e publicados sob o nome Quarto de Despejo: diário de uma favelada, um grande sucesso editorial. Mais adiante, Carolina tenta publicar outras obras, sem recepção calorosa alguma do público, morrendo na mesma pobreza que narrou em sua obra-prima, traduzida para mais de 10 idiomas. A falta de apoio aos seus escritos futuros reflete muito do que Carolina de Jesus expõe em Quarto de Despejo, que compila 20 de seus cadernos: dificuldades socioeconômicas e preconceito racial aparecendo de forma gritante na vida da mulher, que disse "digam ao povo brasileiro que meu sonho era ser escritora, mas eu não tinha dinheiro para pagar uma editora".

    Natural de Sacramento, Minas Gerais, Carolina de Jesus nasce em 14 de março de 1914, neta de ex escravizados. Criada por uma mãe lavadora, grande força motriz de sua família, a jovem Carolina consegue bolsa de estudo para o prestigiado colégio Alan Kardec - mas apenas brevemente, cursando a primeira e segunda série apenas, em razão de migração da família em busca de oportunidades de emprego. Após uma série de mudanças, a família se instala em Franca no estado de São Paulo, onde Carolina reside até 1937, quando sua mãe falece. Aos 27 anos, ela se muda para a capital paulista, onde começa a sonhar com a literatura. Em 1941, tem um poema seu homenageando Getúlio Vargas publicado no jornal A Folha - desse ponto em diante, passa a regularmente enviar poemas ao jornal, recebendo calorosos elogios de seus leitores.

    Em 1958 o jornalista da Folha da Noite, Adálio Dantas, chega à favela de Caninde para uma reportagem sobre as condições precárias de vida na localidade. É onde encontra Carolina, que o mostra seus escritos - admirado com a qualidade textual, orquestra que porção deles seja publicado no Folha da Noite. Mas é somente em 1960 que o livro é publicado na íntegra, chegando a 100 mil cópias vendidas até o fim do ano.

    Nos anos seguintes também publica Casa de Alvenaria: diário de uma ex-favelada, Pedaços de fome e Provérbios, ao mesmo tempo que Quarto de Despejo era reeditado e traduzido em países como Estados Unidos, Cuba e Alemanha. Entretanto, em 1964 a escritora mineira, é fotografada em situação de rua em São Paulo - por conta de contratos parasitas, Carolina pouco se beneficiou da publicação e adaptação de seus livros, enriquecendo apenas as editoras envolvidas. Ela morre em 1977, sem recompensas pela sua contribuição à literatura brasileira, um reflexo claro do racismo impedindo que autoras negras sejam recebidas como autoras brancas, intensificando as dificuldades que já tinham previamente por serem mulheres.



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