Carolina de Jesus além do quarto de despejo
"Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade."
CAROLINA DE JESUS(1914-1977)
Natural de Sacramento, Minas Gerais, Carolina de Jesus nasce em 14 de março de 1914, neta de ex escravizados. Criada por uma mãe lavadora, grande força motriz de sua família, a jovem Carolina consegue bolsa de estudo para o prestigiado colégio Alan Kardec - mas apenas brevemente, cursando a primeira e segunda série apenas, em razão de migração da família em busca de oportunidades de emprego. Após uma série de mudanças, a família se instala em Franca no estado de São Paulo, onde Carolina reside até 1937, quando sua mãe falece. Aos 27 anos, ela se muda para a capital paulista, onde começa a sonhar com a literatura. Em 1941, tem um poema seu homenageando Getúlio Vargas publicado no jornal A Folha - desse ponto em diante, passa a regularmente enviar poemas ao jornal, recebendo calorosos elogios de seus leitores.
Em 1958 o jornalista da Folha da Noite, Adálio Dantas, chega à favela de Caninde para uma reportagem sobre as condições precárias de vida na localidade. É onde encontra Carolina, que o mostra seus escritos - admirado com a qualidade textual, orquestra que porção deles seja publicado no Folha da Noite. Mas é somente em 1960 que o livro é publicado na íntegra, chegando a 100 mil cópias vendidas até o fim do ano.
Nos anos seguintes também publica Casa de Alvenaria: diário de uma ex-favelada, Pedaços de fome e Provérbios, ao mesmo tempo que Quarto de Despejo era reeditado e traduzido em países como Estados Unidos, Cuba e Alemanha. Entretanto, em 1964 a escritora mineira, é fotografada em situação de rua em São Paulo - por conta de contratos parasitas, Carolina pouco se beneficiou da publicação e adaptação de seus livros, enriquecendo apenas as editoras envolvidas. Ela morre em 1977, sem recompensas pela sua contribuição à literatura brasileira, um reflexo claro do racismo impedindo que autoras negras sejam recebidas como autoras brancas, intensificando as dificuldades que já tinham previamente por serem mulheres.
Comments
Post a Comment